Autoestima

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Ninguém conhece as vulnerabilidades da alma humana melhor do que uma profissional de beleza. Refinada, charmosa e sorridente, ela percebe a sua fraqueza antes mesmo de você saber que a tem.

 

Acontece sempre comigo. Confesso que não sou uma pessoa vaidosa - sei que deveria ser –; isso apenas não faz parte de mim. Mas, quando decido me cuidar, saio feliz para ir ao salão: “Hoje quero me sentir mais bonita!”, digo, decidida. 

 

- Bonjour, tenho horário marcado.

- Claro, querida. Sente-se ali um pouquinho que já te atendo. – Dona Madeixa desliga o secador e sorri lindamente. - Quer uma revistinha? – Delicadamente ela se desloca para o revisteiro e me traz uma. 

 

Na capa tem uma mulher linda: “Sharon Stone explica como manter a jovialidade depois dos 60.” Folheio a publicação como faço com a função ‘Reels’ do Instagram: sem concentração. Não demora muito e vem a expansiva senhora.

 

- O que vai fazer mesmo?

- Eu gostaria de cortar as pontas. 

- Seu cabelo está muito seco. Você hidrata seus fios?

- Sim, semanalmente. Uso óleo de coco e adoro.

- Sei, mas o óleo sozinho não adianta.

- Não? 

- Claro que não! Óleo de coco é bom de vez em quando, por isso seu cabelo está sem vida. 

- Está? Achei que estivesse sedoso.

- Aqui no salão vendemos uma maravilhosa linha de produtos. – A jovem senhora sai em busca de um creme. – Aqui, veja os ingredientes: tem babosa, óleo de coco, óleo de abacate, fragrância de rosas. – Finjo que leio, mas na verdade a minha miopia alta não me deixa. 

 

Enquanto ela fala, meu cérebro visualiza cada ingrediente e chego a pensar que é uma receita de salada, dessas que vemos por aí. 

 

- Quanto custa? – pergunto já com a autoestima mais minguada. Entendo que meu cabelo não está tão bonito como eu achei que estivesse.

- 70 euros.

- Estou sem condições este mês, madame. – Digo isto com a voz abafada, pensando que ela poderia ter razão; talvez eu veja as minhas madeixas com os olhos do coração. 

- A senhora que sabe, mas parcelamos em 2 vezes. Indico este produto porque vejo que seu cabelo precisa.

- Hoje só vim para cortar mesmo. Obrigada. – Sorrio, já não sabendo mais o que pensar ou dizer. 

 

A expectativa de me sentir mais bela após o corte desmorona pelo chão junto com as pontas do meu agora cabelo feio.

 

- Gostou? 

- Adorei! Obrigada! – Preciso mentir. Faz parte do jogo. Acredito que meu cabelo deve estar lindo, mas o meu amor-próprio que diminuiu, e parece que tudo perdeu a graça. 

 

Nas semanas seguintes, uso mais e mais óleo de coco para hidratar meus fios, e mudo de cabelereiro. Dessa vez marco num lugar que tem boas avaliações na internet. Chego novamente com a esperança de me sentir mais bonita na saída do que na entrada do salão de beleza.

 


- Seus cabelos estão muito secos. Você hidrata seus fios?

 

Acho que está na hora de aprender a cuidar de mim sem precisar sair de casa. Institutos de beleza destroem nosso brio. 

 

 

 

 

 

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