A Empreendedora

                                                                                                                    

Ela sai do banco carregando na bolsa o dinheiro que conseguiu em um empréstimo com seu gerente. Finalmente, as coisas começariam a melhorar. 

Ontem, a convite de uma amiga, ela participou de um evento incrível sobre empreendedorismo, organizado por uma empresa de cosméticos americana. Mulheres ricas e belíssimas explicaram que cada um escolhe seu destino. “Ninguém tem culpa por nascer pobre, mas se você morrer sem ter vencido na vida, a responsabilidade é toda sua!”. 

O discurso a empolgou. Ao final, foi convidada a comprar um mostruário de produtos para começar a empreender. Sim, ficar rico era simples assim; nenhum risco. “Isso não é um gasto, é um investimento! Se não tem o dinheiro, faça um empréstimo no banco! Essa é sua chance de ficar milionária!”, disse a diretora da empresa após mostrar sua história de superação num vídeo emocionante. Ela viu ali sua própria história de sucesso; também ela venceria, aos 50 anos, vendendo maquiagem.

Mas lhe faltava o dinheiro para comprar o mostruário. “Não se preocupe, volte depois! Essa quantia, agora alta para você, logo não será nada! Você ficará rica!”, disse a americana, sorrindo. Alguém acreditava nela e, o mais incrível, alguém que ela nem conhecia! Vencedora: assim se sentia ao voltar para casa. Faltaria ao emprego no dia seguinte, e nem mesmo se importava se o perdesse.

Segunda-feira de manhã. Levantou-se antes do despertador tocar, colocou sua mais bela roupa, maquiou-se e usou o perfume reservado às ocasiões especiais. Chegou ao banco, conversou tranquilamente com o gerente, sem se importar com a explicação sobre os juros. A mais nova empreendedora só fez um pedido, dito com toda a autoridade:

 - Quero a quantia em espécie. 

É em estado de glória que ela agora volta para casa. Pensa no pai que poderá, finalmente, aposentar-se, pensa na mãe, pensa na vida que está prestes a começar. Ao atravessar a rua, o mesmo ônibus que a trouxe ao banco a atropela. A batida é tão forte que abre sua bolsa e faz voar todo o dinheiro, e, com ele, a esperança de uma vida melhor. As testemunhas do acidente dirão que, antes de dar seu último suspiro, lágrimas escorreram pelo seu rosto. 

A pobre mulher, dirão todos, chorou ao morrer, ainda pobre. 

Karem Roman

 

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